sexta-feira, 8 de abril de 2011

Wonderland.


“A Lagarta e Alice olharam-se uma para a outra durante um tempo em silêncio: por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca, e dirigiu-se à menina com uma voz lenta e sonolenta:

‘Quem é você?’, disse a Lagarta.

Este não era um começo de conversa encorajador. Alice respondeu timidamente: ‘Eu – eu não sei muito bem, Senhora, neste momento – pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas eu acho que eu tenho mudado muitas vezes desde então’.

‘O que você quer dizer com isso?’, perguntou severamente a Lagarta. ‘Explique-se!’

‘Eu não posso me explicar, eu acho, Senhora’, respondeu Alice, ‘porque eu não sou eu, veja’.

‘Eu não vejo’, disse a Lagarta.

‘Receio que eu não posso dizer isso mais claramente’, Alice replicou muito educadamente, ‘porque eu mesma não consigo entender isso, para começar; e ser de diferentes tamanhos em um dia é muito confuso’.

‘Não é’, disse a Lagarta.

‘Bem, talvez você ainda não percebeu isso’, replicou Alice, ‘mas quando você tiver que se transformar num casulo – você terá um dia, você sabe – e então, depois disso, numa borboleta, eu penso que você sentirá isso um pouco estranho, não?’

‘Nem um pouco’, retrucou a Lagarta.

‘Bem, talvez seus sentimentos possam ser diferentes’, replicou Alice. ‘Tudo o que eu sei é que isso parece muito estranho para mim.’

‘Você!’, exclamou a Lagarta desdenhosamente. ‘Quem é você?’

'A Senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando eu acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu… Receio que não posso me explicar, dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma', disse Alice.

Isso as levou de novo para o começo da conversa. Alice sentiu-se um pouco irritada pelo fato da Lagarta ter feito tão pequenas observações, e colocando-se ereta, disse gravemente: ‘Eu acho que você tem de me dizer quem você é primeiro’.

‘Por quê?’, perguntou a Lagarta.

Esta era outra pergunta enigmática, e como Alice não conseguia pensar em alguma boa razão, e como a Lagarta parecia estar muito chateada, a menina deu meia volta.

‘Volte!’, chamou a Lagarta. ‘Eu tenho algo importante pra te dizer!’

Isso soava promissor, certamente. Alice virou-se e voltou.

‘Tenha calma’, disse a Lagarta."

(...)